Terça-feira, 9 de Junho de 2009




O Alto Douro Vinhateiro e o Comboio a Vapor
Recordo com imensa saudade nos meus tempos de infância, quando vivi em Águeda, o velho comboio a vapor da linha do Vouga, efectuando o longo percurso acidental nas margens do Rio Vouga entre Aveiro e Viseu. Um comboio negro identificado ao longe pelo imenso fumo que deitava pela chaminé, apitando ao ritmo de pouca terra, pouca terra.

Uma poderosa máquina a funcionar a carvão e água, cujo formato exterior caracterizava a sua enorme caldeia em formato de tambor de forma cilíndrica. No seu interior uma série de válvulas e tubos faziam circular o vapor de água quente que era posteriormente canalizado por um sistema de êmbolos e pistões para uma biela ligada às rodas.

E era a grande pressão do vapor de água que com muita força movimentava a biela e consequentemente colocava o comboio em movimento.
Para as acelerações e desacelarações o maquinista possuia uma série de válvulas que, controlando a pressão do vapor de água assim aumentava ou diminuia a velocidade.
Para o mantimento da pressão elevada do vapor de água quente o fogueiro alimentava a fornalha constantemente manualmente com pás e mais pás de carvão. E assim saía uma quantidade imensa de fumo e vapor de água pela chaminé da locomotiva a caracterizar o "comboio da vapor".

 

Mas o meu trabalho de hoje não é referente à saudosa linha do Vouga visto que foi desmantelada há pouco mais duma dezena de anos por incúria de muitos, pois que, além da função social que ocupava, o seu trajecto revestia-se duma beleza paisagística invejável, com o seu maior troço ao longo do Rio Vouga. 

O meu trabalho de hoje em que incluo a locomotiva a vapor A 187 a percorrer o Douro Vinhateiro, é um pouco diferente locomotiva VV 22 do vouga, pois esta última era bem menos poderosa e de bitola pequena.



Esta Locomotiva fabricada em Berlin no ano de 1923 atinge uma velocidade média de 35 Km/ hora; recuperada para fins turísticos, consome uma tonelada e meia de carvão por cada 2 horas de funcionamento; são puxadas carruagens de 1907 e 1993, oferecendo a quem visualiza o seu percurso pela linha um real cenário do início do século XX

Este trabalho que apresento corresponde ao trajecto do comboio entre a Régua e o Pinhão. Em velocidade acelerada no meu automóvel procurei constantemente ultrapassar o comboio pela margem esquerda do Douro, cuja rodovia segue paralelamente à via férrea na outra margem filmando os melhores cenários do trajecto da locomotiva após sucessivas paragens estratégicas.
Sábado, dia 06 de Junho de 2009, cheguei à Regua às 14.30.
Já na Ponte antiga de Lamego-Régua observava ao longe na gare do Peso da Régua um imenso fumo que subia na vertical e se dissipava logo por toda a área envolvente da estação de caminhos de ferro. Sem dúvida que correspondia ao fumo do carvão e vapor de água que brotava da grande fornalha da locomotiva A 187.

Entrei na Estação; tinha acabado de chegar um comboio a diesel proveniente do Poçinho; numa outra plataforma a atracção era outra; várias dezenas de pessoas, com máquinas fotográficas e câmaras de filmar concentravam-se à volta da Locomotiva a vapor A 187 emanando para todo o ambiente envolvente uma poluição de fumo, que quando a ventania se desviava para o nosso lado, quase que nos abafava.

Os turistas e viajantes depois de apreciarem as velhas carruagens muito bem conservadas, e observarem o grupo de músicos locais a tocar música regional ao longa da plataforma, iam entrando à medida que a hora da partida se aproximava.
O Chefe da estação fez soar o apito; à hora precisa a locomotiva secular sai para a aventura da viagem até ao Poçinho, voltando por volta das 18. 30.

Saio da estação e já no meu automóvel atravesso a ponte. Na outra margem avisto o comboio a chegar à Barragem da Régua, que se encontra também numa azáfama grande: a abertura e fecho constante das suas comportas naquele dia a permitir aos barcos turísticos que vençam o desnível das águas.
Mas paro mais à frente junto a um pequeno túnel para filmar toda a beleza envolvente e o comboio a penetrar por terra a dentro.
Acelero até uns quilómetros mais à frente, ultrapasso o comboio que vagarosamente faz o seu percurso, e sedio-me na bonita aldeia de Folgosa do Douro apontando a minha câmara Sony EX, para a outra margem do rio onde fica localizada a aldeia de Covelinhas e por onde o trem passa logo de seguida.
Ao longo da margem, o comboio serpenteia o rio, e de quando em quando emana grandes quantidades de fumo, vai apitando com aquele som agudo que ecoa ao longo do grande vale do rio e chega ao Pinhão.
Consegui antecipar-me e chegar à plataforma da linda Estação do Pinhão minutos antes da composição chegar.
Eis que a imponente máquina dominado todo o cenário envolvente se aproxima e pàra na estação.
Mesmo ao lado dum volumoso tanque metálico de água e por baixo duma gigante torneira de ferro a máquina abastece-se de uma boas centenas de litros de água. Os três maquinistas que dominam a máquina saiem e depressa se apressam a lubrificar a peças e pistões do exterior da máquina; um trabalho importante para manter a máquina em estabilidade.
Os turistas e viajantes saiem um pouco para admirar a beleza da estação do Pinhão recheada de azulejos alusivos ao Douro e Vindimas.
A viagem continua até ao Tua.
Este passeio turístico aos Sábados durante os meses de Verão com toda a animosidade de grupos folclóricos locais a rvitalizar o circuito é mesmo para aproveitar enquanto tiver-mos o privilégio de usufrir o "Comboio histórico a vapor" O Alto Douro Vinhateiro corresponde à zona mais expressiva, mais bem tratada e conservada da região Demarcada do Douro. Alto Douro Vinhateiro está associado a vinho de qualidade excepcional e de elevada rentabilidade económica.   

 

A profunda e intensa beleza que observamos em todo este território é sem dúvida o resultado duma interacção entre o homem e a natureza ao longo dos últimos séculos.
Uma paisagem que o homem lentamente foi moldando, e tal por que o solo e temperaturas locais possuiam as condições propícias para a produção de vinho de alta qualidade, com grandes capacidades de exportação. Então foram criadas e aperfeiçoadas técnicas de aproveitamento de todo o espaço de cultivo através da construção de patamares, socalcos e muros xistosos.
Toda esta adaptação dos terrenos que o homem realizou, criou e moldou uma tal paisagem fascinante e invulgar que foi reconhecido mundialmente, passando a ser considerado pela Unesco Património Mundial da Humanidade.
É assim o cenário envolvente do Douro vinhateiro com a fenomenal paisagem natural e modificada pelo homem com imensas vinhas ao longo das íngremes encostas dos vales do Douro são prova da grande dedicação, brio e trabalho do homem, desde que cultiva a vinha.
Montanhas xistosas escassas em água, mas de clima mediterrânico onde o homem optimizou todos os recursos ambienciais. Vê-se além da dominância dos vinhedos, a cultura da oliveira e amendoeira. Também a proliferação de laranjeiras, nespereiras e cerejeiras é visível.
Todas estas características consequentes às condições climatéricas, ao factor humano e condições históricas, identificam a grande identidade cultural das populações Dourienses essencialmente centralizada na cultura da vinha altamente enraízada na história local.
A cultura e tratamento da vinha exige constantemente o intercâmbio de populações vizinhas. É por tal que culturalmente toda a região é heterogénea, constituida pelo seu povo e as correntes migratórias sobretudo de beirões, transmontanos e portistas para o trabalho.




publicado por valores-do-douro-sul às 21:32 | link do post | comentar

António José Leitão Canotilho

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