Sábado, 3 de Setembro de 2011

O Abade Vasco Moreira no seu livroTerras da Beira, Cernancelhe e o seu Alfoz editado em 1929 pronunciando-se sobre a gente de Sernancelhe no capítulo II, Parágrafo IV, pag. 47 refere:

“...O Cernancelhense é alto, corado, franco e leal: é o tipo do beirão, forte, amoroso, caritativo. Não tem aspirações demasiadas. Sóbrio, tenás e resistente ao trabalho, é também resignado e paciente...”

“...Mantêem-se nestas terras os usos e costumes tradicionais de toda a região; destes, o mais interessante é o comunitarismo agrário. A eira, o forno, o lagar e o moinho, são comuns...”

“...E, todavia, essa população é inteligente, com aptidões para as letras e sciências, como provam os que a elas se têm dedicado. Fala-se aqui, geralmente, com admirável correcção e pureza, a nossa língua, alindada até de termos e frases clássicas...”

 

Características que assim assinaladas retratam uma população com características peculiares, sentindo-se o laço da solidariedade a espelhar um perfil que se manteve vivo até ao período do 25 de Abril. Nas décadas seguintes houve uma desmedida transformação da sociedade, sobretudo uma fragmentação de muitos dos valores civilizacionais que o Abade Vasco Moreira caracterizava nesta população.

Não era só o associativismo agrário que nos caracterizava, mas muito mais... teatros populares nas aldeias tendo como figurantes o povo local, bailes domingueiros partilhados pelos jovens sob a observação atenta dos mais idosos, participação de todos nas festividades religiosas, conversas de lazer improvisadas à volta das fontes, no adro da Igreja, ou junto ao posto de telefone e correio, enfim... no mais pequeno recanto improvisava-se uma conversa salutar.

Nesses tempos passados, não se olhava a clubes ou divisas, embora a filosofia de cada um estivesse mais ou menos presente, essencialmente nos mais cultos.
Foi depois do 25 de Abril que se iniciou nalguns a mudança, onde muitos passaram a olhar mais para a divisa da camisola, do que propriamente para as pessoas e amigos.
Porém, perdura ainda por muitos o espírito da fraternidade e lealdade, ou seja, a pura ligação através de amizades pessoais e institucionais, que faz permanecer o fermento cultural sernancelhence, valor de união assaz importante. Uma virtude do homem que coloca o conterrâneo acima das ortodoxias.

Considero primário e com precariedade de cidadania as hostilidades clubísticas e emblemáticas que contrariam tantas vezes o valor humano e cultural do indivíduo. Tão agradável viver-mos com diferente opiniões e emblemas, para assim no todo poder-mos deliberar decisões em plena harmonia com a sociedade.

Complemento as palavras do Abade Vasco Moreira: o Sernancelhence, como beirão que é “franco e leal” ,“ forte, amoroso” possui um valioso património afectivo escondido na personalidade, gosta da proximidade e timidamente procura o bom relacionamento. Tendencialmente gosta da organização.

Porém, como efeito dominó da “crise de valores” a prevalecer na sociedade, em Sernancelhe, também se sente a conjuntura da instabilidade da afectividade e do associativismo.
Realço dois contextos:
-A importância das Instituições que têm uma função social a não lhes ser dado o merecido reconhecimento, e cujo objectivo final é o bem estar populacional duma forma global, sobretudo dos mais incapacitados e dos idosos.
-Associações importantes, nomeadamente recreativas em que se perdeu a motivação nas direcções, que até então outorgavam prestígio social.

 

É terrível, vemos decadência e extinção de associações culturais e recreativas, e progressivamente, os “bons homens” a afastarem-se da colectividade.

E o futuro que nos promete? Em muitos perdura a ideia da continuidade do fenómeno de desertificação.

Todavia há ainda muita boa gente a pensar no valiosíssimo património humano e cultural que possuímos,no valiosíssimo encanto arquitectónico do passado e na grande diversidade encantadora da natureza geográfica.


Assim sendo há condições para investimento no turismo, e possibilidade em receber muitos que se encontram saturados do ambiente citadino.


Desta forma poder-se-ão então criar pólos  atractivos e de fixação no Concelho, basta que usemos a filosofia com que o Abade Vasco Moreira nos caracterizou.

Nesta foto, ao centro, Luis Canotilho, artista, licenciado em Belas Artes, natural de Sernancelhe



publicado por valores-do-douro-sul às 09:08 | link do post | comentar

António José Leitão Canotilho

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