Terça-feira, 19 de Junho de 2012

Se fosse excêntrico e grande milionário do petróleo, reabilitava uma das linhas férreas de bitola estreita desactivadas de Portugal

 

Em finais do século XIX as linhas do Dão e Vouga a convergirem em Viseu foram símbolos do modernismo, prosperidade e desenvolvimento para a região.

A revolução do vapor deslocou o homem do mundo rural para as grandes urbes, povoados onde imperava o modernismo industrial, fruto da força do vapor, o desejo de coabitar com o poderoso desenvolvimento da época. A vontade que o homem sempre teve na prosperidade e a procura do novo e desconhecido.
Porém a fuga às correntes tradicionais e a procura de modelos civilizacionais contemporâneos, também o remeteu para incertezas e contradições. Foi a evasão aos seus limites e habitat, a desorientá-lo face ao afastamento dos seus valores, símbolos e referências.

E os registos que caracterizam uma determinada população, são valores civilizacionais aprendidos ao longo de séculos e os agentes de estabilidade e equilíbrio destas.

Referências da identidade, sejam nacionais como o hino ou simbolismo dos castelos medievais, ou culturais como a religião costumes e as tradições, valores da pertença dum povo, da organização e estabilidade deste, do bem estar do se humano duma determinada comunidade.

O modernismo transportou o homem para territórios longínquos do seu habitat, descontextualizados  dos seus valores relacionais e identidade, conferindo a essas áreas, símbolos e valores descaracterizados de alma e história, consequentemente, da pertença de todos e de ninguém.

Hoje, muitos de nós, homens da modernidade, já admitimos esta realidade contemporânea, porém para que gozemos de estabilidade psico-social, sentimos necessidade de retroceder aos tempos passados, a todo o imaginário envolvente, para nos asseverar a relação a um determinado espaço ou pertença de certa comunidade.


E são estes os principais motivos do interesse em reaver-mos valores, tradições e epopeias do passado, por que assim, acharemos o verdadeiro sentimento de respeito e orgulho ao elevar os valores referenciais dos nossos antepassados e da Pátria.

 



E este texto dirige-se ao grande símbolo da época moderna, a era do vapor, o COMBOIO, transporte que deslocou gentes das aldeias do interior para as grandes cidades, viabilizando a rápida movimentação de mercadorias para locais distantes.

Assim, a era do vapor, muito marcada pela difusão das linhas férrea pelo território nacional, demarcou o final do séc. XIX e início do século XX como a grande revolução dos transportes, tempo do grande modernismo, liberdade na deslocação do homem para longas distâncias, a possibilidade em se aproximar dos entreportos comerciais, das zonas industriais, as grandes cidades, e assim ter a possibilidade de permutas comerciais com o mundo industrializado.

Ao longo destas linhas férreas estabeleceu-se um habitat simbiótico com certo traço de envolvimento fascinante a interagir com o homem, transportando os seus sonhos à realidade em se poder facilmente afastar na procura da aventura ou de melhores condições de vida, mas também sentir a percepção que o caminho de volta se encontra pela mesma linha dos carris

A grandiosidade da tecnologia do século XIX e XX encontrava-se bem presente ao longo dos percursos do caminho de ferro: as imponentes locomotivas movidas a vapor a traccionar longas composições de carruagens e as modernas obras de engenharia da altura: pontes metálicas atravessando vales, túneis a penetrar montanhas a dentro, graciosas estações bem alindadas e ajardinadas. Em suma, todo o explendor da última geração tecnológica humana.

 

Contemporaneamente surgiu uma outra revolução, a tecnológica, desta vez a informática, a modificar muitas das regras do quotidiano, reorganizando o homem sob nova conjuntura, imputando-o refém e astrito aos computadores, transportando-o-o para o mundo virtual, da informação, modificando a síntese da realidade, infirmando normas institucionalizadas.

Porém nesta nova sociedade onde a rápida informação prevalece, tudo se tornou tão rápido e banal. O que hoje é aceite, logo negado no dia seguinte.
Tal paradoxo é descodificado pela mente de muitos no sentimento de negação e rejeição a tal modernidade, tão susceptivel ao individualismo à labilidade e instabilidade.

Perante este novo mundo de insatisfação humana o homem reflexivo e de valores, como que instintivamente procura os verdadeiros símbolos civilizacionais de consistência ao passado e memória colectiva das suas comunidades.

Assim, entendemos porque na perspectiva epopeica do simbolismo das linhas férreas, em muitos surge o sentimento da grandiosidade, da aventura, do romantismo e da consistência na força e audácia.

Entendo o porquê das manifestações para recuperar e reabilitar linhas sumptuosas como a do Tua e do Corgo... é que o simbolismo dos caminhos de ferro coabita com o intelectual de hoje, transportando o indivíduo para o saudoso passado vivido intensamente e tão recheado de boas recordações.
E, recordar é viver, e, retroceder momentâneamente para reais cenários passados, transporta o homem romântico para uma dimensão infinita de paz e retoma de energias.
Entendemos que, em oposição ao mundo virtual da informação e da irrealidade a proporcionar cada vez mais insatisfação e mal estar ao homem, o cenário do comboio e seu mundo envolvente, oferece o mundo real de emoções e sensações, com a constante interacção entre este e a multiplicidade de paisagens a surgir quilómetro a quilómetro, com o convívio propiciado perante os vários passageiros sentados frente a frente nas carruagens, guiados

com firmeza por uma locomotiva.
 



publicado por valores-do-douro-sul às 19:45 | link do post | comentar

António José Leitão Canotilho

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