Sábado, 10 de Novembro de 2012

 

Médico de família, o Médico assistente

 

Valor de referencia a preservar e respeitar.

Pilar fundamental importante ao progresso da ciência médica.

Actualmente um interesse na complexidade de programas de governos?

Cuidados de saúde com ideias inovadoras aos problemas de saúde dos cidadãos?

Afinal o que é a medicina familiar e o papel do verdadeiro médico de família?

 

Bem, irei tentar esclarecer os factos:

há alguns anos fui chamado a uma consulta domiciliária, uma família que me procurou, por conselho dumas amigas, sem me conhecer na realidade. Atendi o doente e expliquei a todos o que se passava, efectuei a prescrição necessária e as recomendações a adoptar, aceitei de bom agrado o café que me ofereceram. Neste momento de relaxamento com esta família, cumprido o acto médico, a filha do paciente exclamou:

-  Sr. Doutor, a amiga que me recomendou o senhor disse-me que era o seu médico de família, porém, na realidade esperava, ao vê-lo entrar, um velhinho de mala antiga e de fato...

 Ficou desiludida? perguntei um pouco atrapalhado

-  Não, de modo algum, sabe, Sr. Doutor? hoje em dia já não vemos Médicos de Família a assistir um doente com esta prontidão e motivação.

Lembro-me em criança, o Médico que nos assistia, visitava-nos, e após um interrogatório e exame objectivo, afirmava um diagnóstico... morreu há muito tempo, e depois que habitamos aqui pela Beira Interior nunca mais tivemos um Clínico assim.

Hoje tudo é muito complicado e confuso: exames e mais exames, hospitais, e nem chegamos a saber a saber o que efectivamente se passa connosco ou com a família...

-  Mas a senhora costuma de apresentar as dúvidas aos meus colegas?

-  Eles não explicam nada, falam em linguagem de que nada entendemos. Depois nem nos examinam, não olham para nós, e só pedem exames... É pena já quase não haver Médicos com o verdadeiro perfil de Médico Assistente... estes sim, é que eram bons...

-  Mas, minha senhora, está a falar com um Médico Assistente formado em Medicina Familiar...

-  Será que este valor com estas características voltará um dia a ser uma realidade em Portugal?

 

A minha interlocutora, não estava muito convencida de que o Médico assistente, Médico de família é uma realidade, e que estava na frente dum “elemento” da “Classe Médica” que pensava já não existir.

A lembrança do velhinho simpático da aldeia que conheceu em criança, monopolizava todas as lembranças e saudades do verdadeiro Médico.

Esta história verídica, como muitas outras semelhantes que se passaram na minha vida de clínico clarifica a questão do actual tema.

 

O Médico de família, após uma abordagem ao doente, sabia o que se estava a passar com ele, possuía bons critérios de diagnóstico e resolvia tudo com metodologia e de forma prática.

 

Acabei a segunda chávena de café com os familiares da doente, despedi-me e voltei para meu consultório.

Mal iniciei a viagem, vieram-me à memoria conversas tidas entre amigos, sobre o que é o verdadeiro modelo de Médico de família ou Médico assistente.

Simplesmente o que a filha da minha paciente tinha acabado de referir de forma tão expontânea:

“tão importante como conhecer a doença é conhecer a pessoa que tem a doença”

“não existem doenças, mas doentes”

Sem esquecer este pormenor:

“mais importante do que o Médico faz, é o que o paciente pensa que o Médico está a realizar”

 

Toda esta sabedoria estava moldada na típica figura do velhinho, aquele Médico de família lembrado por aquela senhora.

 

A segunda história vem não de um paciente, mas dum médico experiente e professor, com quem conversei por diversas vezes sobre assuntos da Medicina familiar:

Colega, costumo transmitir aos meus doentes que sou Médico daqueles que se sentem mesmo mal

Como Sr. Professor? perguntei apreendido.

Veja, António José, as pessoas que se queixam de cefaleias, procuram o Neurologista. Dores de costas, vão ao Ortopedista ou Reumatologista. Se sofrem de dores no peito ou pontas precordiais, então recorrem ao Cardiologista ao Pneumologista.

Agora quando a pessoa “se sente mesmo mal”, então procuram-me directamente. Sinto-me o Médico de quando os pacientes passam mesmo mal.

 

Por associação de ideias, embora de dimensão completamente diferente lembrei-me do Sr. Ramos, o técnico de informática que assiste os meus MAC, a quem deposito toda a confiança havendo alguma avaria nos computadores.

Já lhe disse: Sr. Ramos, ao ter uma avaria no computador, não vou tentar adivinhar se é do software ou hardware, entrego-o ao senhor e é em si que deposito toda a confiança.

O Médico assistente, embora a diferentes níveis, tem algo de semelhante: a pessoa tem um problema de saúde, e ao contrario de tentar adivinhar o que tem, ou então acertar no especialista adequado, procuram-nos, e nós descodificamos os sintomas que a doença causa, diagnosticamos e, se necessário pedimos apoio do especialista.

Mas, senhor Doutor, não é fácil encontrar um Médico com tal formação. Por vezes andamos de especialista em especialista, uma autêntica bola de pingue-pongue, exames e mais exames, e no final, nem sempre resolvem o problema de saúde...

É claro, pois que, além dos diagnósticos serem assunto para clínicos, perante a procura de muitos pacientes a verdadeira via sacra de médicos a tentar encontrar o especialista certo, mais valia que procurassem o verdadeiro Médico Assistente.

 

As doenças que o Médico de Família ou Médico Assistente observa na sua rotina diária, são muitas, e constituem a melhor explicação para a sua especificidade.

Os pacientes que verdadeiramente estão doentes depressa entendem o que é a medicina familiar, e quando ela existe nesta essência procuram-na em primeiro lugar.

A cultura de especialidades em primeira instancia instalada na mente de muitos a desvalorizar a qualificação e grande valor do Médico assistente, Médico de Família ainda existe, porém observamos que o intelectual e o homem inteligente não dispensam o seu clínico de referencia.

 

Em certos serviços onde por vezes nós Médicos de Família exercemos funções e, onde não somos conhecidos (serviços de urgência) e perguntamos:

E de que se queixa mais o senhor?

já ouvi diversas vezes:

Sr. Doutor, da sua parte é só isto...

 

Mas, quando nos apresentamos num serviço como Médicos de Família, o doente denota então que podemos ajudar à resolução dos seus vários problemas de saúde, e pergunta:

Senhor Doutor, que sintomas devo ter, para ser observado por si?

Concerteza que a resposta vem daquele meu colega e professor:

- Eu trato de pessoas humanas, cada qual com as suas características e subjectividade. O doente que passa mal pode-me procurar, seja lá com que queixa seja.

Penso com consciência e reflexão.

 

Porém, é assaz importante a formação e cultura do Médico de Família.

É importante da parte deste, a competência, dedicação e compromisso com um adjectivo que se resume na seguinte frase:

- “saber tratar, querer tratar” o próximo.

- Estar ao lado dos que sofrem e sabê-los entender.

Saber dar resposta às dúvidas dos pacientes e procurar entendê-los, apoiando-os nos seus medos.

 

Quando alguém está muito doente, quem mais quer a seu lado é alguem da sua intimidade, e logo de seguida o Médico. Mas esse Médico, é o Médico Assistente, que trata sempre, seja lá qual for a doença do paciente.

É o Médico que conhece e é conhecido do paciente.

É o Médico que trata em qualquer altura e está ao lado do paciente, onde quer que esteja: no consultório, no domicílio, ou mesmo no hospital onde teve de ser internado.

Está ao lado com consciência de missão, ajudando a resolver os problemas da doença, atento às expectativas deste e da família.

 

“Quem tem muitos Médicos acaba por não ter nenhum”, diz o ditado popular.

Uma velhinha minha doente em determinada altura disse-me:

Sr. Doutor, andar de médico em médico é terrível... Não sabemos o que nos acontece, só remédios e mais remédios, exames e mais exames... Muitos médicos a tratar um doente é como muitas mulheres na cozinha: confusão e nunca mais vem a refeição.

 

A Medicina familiar, pilar da Medicina contemporânea ainda tem muito do clássico “João Semana” ou daquele velho Médico referido no início deste tema, mas com a ciência, tecnologia e informação moderna, oferecendo ao paciente o que de melhor existe na comunidade médica internacional.

O Médico assistente, Médico de família de hoje, não é um profissional com a cultura do passado. Incorpora os progressos da ciência, transmitindo-os ao paciente numa linguagem compreensível e acessível.

 

Hoje, a Medicina vive tempos de grandiosidade e progresso. Porém paradoxalmente nunca se sentiu tanta frieza e desumanização. Sente-se que o médico, tão preocupado com a doença se esquece do paciente, vítima dessa doença.

A culpa é do contexto actual da sociedade a necessitar duma postura humana diferente, a humanização e respeito na medicina, colocando o paciente em primeira linha.

 

Na ciência medica, o paciente é o protagonista, o médico terá de ser um bom protector.

O Médico de Família surge como a figura integradora, a referencia de confiança, de forma que o doente o possa abordar nas questões primordiais da saúde.

 

É o Médico de Família, o que possui a competência para avaliar o seu paciente como um todo, num abordagem completa.

É o Médico de Família que ouve, ajuda e trata o paciente.

Sentir segurança no seu Médico é de primordial importância à luta do doente para com a sua doença.

O Médico de Família, tem de ser humano e compreensivo, tem de ser técnico, actualizado e saber tratar.

 

Medicina Familiar, é a medicina centralizada na pessoa humana, e representa o que, em outras épocas se chamava Médico da casa, médico de referência, pronto para qualquer situação ou dúvida. Médico que trata da família e ajuda à resolução de problemas de saúde.

O Médico de Família, não é o Médico  do coração, do pulmão ou do cérebro, mas sim o Médico Assistente

 




publicado por valores-do-douro-sul às 21:17 | link do post | comentar

António José Leitão Canotilho

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