Quinta-feira, 19.07.12

Em 1914 estabeleceu-se a circulação regular de comboios na linha do Vouga, entre Aveiro e Viseu.

Via estreita a estriar-se com as grandiosas máquinas a vapor, que se afirmaram até 1970, substituidas então por automotoras a diesel.
Em 1990 foi encerrado o trajecto mais frondoso da linha:o troço de Sernada do Vouga a Viseu.

A contígua linha do Dão com a rota entre Santa Comba Dão e Viseu, também encerrou. Assim, Viseu perdeu o considerável valor ferroviário com saber e experiência de 80 anos.

Foi injusto para a cidade perder estas duas linhas férreas com a enorme memória ferroviária, valores indiscutíveis ao desenvolvimento da região no século XX.

Nem sequer houve a merecida sensibilidade à criação dum núcleo museológico ferroviário representativo da memória do comboio em Viseu, por respeito a este valor histórico do progresso. Núcleo de preservação da memória do comboio e dos ferroviários, esta, profissão única da cidade criada com a implementação da linha férrea. Uma obrigação da representatividade da comunidade a dotar o merecido espaço com espólios achados das antigas locomotivas, as diversas e variadas peças, a herança férrea, de inquestionável interesse histórico e arqueológico... o legado do comboio em Viseu.

Ignoradas as vidas e história criadas por homens e mulheres que trabalharam nesta linha do comboio, descurada a importância económica que tiveram as várias profissões exercidas ao caminho de ferro, como os fogareiros, os maquinistas, os revisores, guarda fios, serralheiros, electricistas, mecânicos, chefes de estação... que ao longo das estações até Viseu contribuiram para a construção da memória colectiva do Visiense. Homens de saber e experiência com um legado de brilhantes histórias e aventuras, a enriquecer o património intelectual, experiência da pesada labuta e trabalho, das alegrias e pesadelos.

A linha do Vouga de Aveiro a Viseu  foi importante motor de desenvolvimento duma região multifacetada em termos culturais, industriais, agrícolas e paisagístico, trouxe o progresso a estas gentes, contribuindo para a prosperidade da região. Porém não companhou o impulso tecnológico que surgiu nas últimas década do século XX, consequência de más políticas de desenvolvimento a beneficiar o litoral, prejudicando o interior do País.
É de lamentar, um caminho de ferro que poderia ser rentável, com gestão equilibrada indo de encontro às necessidades  das populações locais, com a vertente turística associada.

É pena, falhou a visão do futuro, os estudos no terreno, e o enquadramento do transporte num sistema vantajoso para a companhia e população. Em vez do investimento optou-se pelo abandono e encerramento.

Linha do Vouga, património edificado no início do século XX desmoronada pela insuperável rigidez do progresso, a desrespeitar o simbolismo heroico do passado recente e o interesse social e turístico que a linha representa.

Tempos impiedosos e modernos de hoje, em que tudo se faz a ritmo acelerado, sem ponderações e reflexões, a prevalecer o interesse economicista aos valores de necessidade social e interesse económico regional, fundamentais ao progresso dos dias de hoje. 

O ser humano na verdade, ganhou riqueza e velocidade, mas... a sua estrutura física e mental não possui capacidade para acompanhar o desenfreado progresso, e assim o homem de hoje, dominado por este "TGV" descompensa e torna-se refém do novo mundo, com doenças psicossomáticas a interferirem com a sua qualidade de vida.

Após o encerramento em 1989 do troço entre Sernada do Vouga e Viseu, a Linha do Vouga conta actualmente com dois itinerários: o itinerário entre Espinho e Sernada do Vouga e o itinerário ente Sernada do Vouga e Aveiro com 37,7 kms, que apresento no filme deste post.

Quem pense que o País se desenvolve exclusivamente a partir de grandes investimentos, como o TGV e o novo aeroporto, não está actualizado  na verdadeira conjunctura nacional, estando muito provavelmente a lesar o património humano e cultural de Portugal. O País só se desenvolve se conseguir avançar no caminho do progresso como um todo. Se canalizar todos os seus recursos, ou se endividar ainda mais, para prosseguir apenas nesse caminho deixando o resto do País com infra-estruturas que não evoluíram praticamente desde a sua construção no final do séc. XIX, Portugal não deixará de ser um País subdesenvolvido.
O País precisa, hoje talvez mais do que nunca de promover, de aumentar o investimento público, para revitalizar a economia e sair da crise. Necessita de incentivar o investimento e o consumo privado e precisa especialmente de criar empregos. E para isso o investimento público em pequenos projectos diversificados ao longo do País e em vários sectores é fundamental.
O desprezo pelas necessidades das populações do interior, o encerramento, ou o conformismo com a progressiva degradação de infra-estruturas do caminho de ferro, vitais para comunidades e regiões são uma marca deixada pela gestão  de muitos políticos post 25 de Abril. 

 




publicado por valores-do-douro-sul às 19:03 | link do post | comentar | ver comentários (1)

António José Leitão Canotilho

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